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Culturas em trânsito: A leitura, o ócio e o direito ao descanso

Atualizado: há 1 dia

Como imigrantes, é importante lembrarmos dos direitos que temos. Espero que você saia dessa leitura entendendo a literatura como um deles.


Por Natali Reis


Antes de começarmos nosso texto, acho que vale uma apresentação: 


Meu nome é Natali Reis, eu sou formada em Letras pela Unesp-FCLAr e atualmente estou terminando meu mestrado em Estudos Latino-americanos na Freie Universität Berlin, com foco no Brasil em Contexto Global. 


Eu venho do interior de São Paulo, criada no meio da crença popular, dos saberes das minhas avós e das histórias que minha mãe me contava sobre sua infância em Pernambuco. Nessa minha, ainda curta, vida já me desafiei um pouco: fui professora de literatura, de gramática e redação, estudei espanhol e alemão ainda na graduação, já recebi bolsas CAPES para projetos de iniciação científica e iniciação à docência.


Quando vim para Berlim, há quase três anos, me perguntei (e talvez me pergunte até hoje) como exatamente a vida me trouxe para esse lado do mundo. Como tantas outras imigrantes, questiono constantemente as minhas decisões, enquanto vou criando uma rede de apoio que me surpreende com acolhimento e amor. 


Sou apaixonada pelo Carnaval das escolas de samba, por pagode e por boas histórias acompanhadas de café (sempre coado, sem açúcar e sem leite). Aqui você vai encontrar essas paixões misturadas às incertezas que me rondam: como se (re)conhecer e se (re)encontrar na vida de imigrante através da arte? Meu objetivo é te conectar com a cultura brasileira que acontece em Berlim, mas também com aquela que acontece no Brasil. Porém, já te peço licença para também poder falar sobre outras formas culturais, afinal, uma festa latino-americana, uma exposição de arte africana ou um bom festival de comida libanesa, para mim, também remetem à casa.

E por aqui, te prometo que a única IA que acessaremos é a Inteligência Ancestral. Bem vindas ao Culturas em Trânsito.


Dia 23 de abril - Dia Mundial do Livro


Eu acho que sempre existem motivos para se comemorar esse dia, mas 2026 surpreendeu com notícias boas perto dessa data.



A divulgação do MEC Livros no início do mês de abril foi um grande marco para o que eu espero ser a revolução da leitura — falaremos mais sobre isso. Em um site totalmente gratuito, o governo federal disponibilizou cerca de 1.700 obras entre aquelas que já estavam no domínio público e outras que foram concedidas através de acordos para liberação dos direitos autorais.


Com essa biblioteca virtual, o acesso aos livros passa a ser mais democrático. O login no MEC Livros é feito através do mais-mais: o seu cadastro no Gov.br. Porém, para nós que estamos fora do Brasil, a locação de livros não é possível sem uma conexão VPN.


Leituras em Berlim


02 de Junho de 2023 - Segundo dia em Berlim encontrando Tutaméia no primeiro Flohmärkt que visitei.
02 de Junho de 2023 - Segundo dia em Berlim encontrando Tutaméia no primeiro Flohmärkt que visitei.

Para quem ainda não possui VPN, ou não abre mão dos livros físicos, Berlim também oferece bibliotecas ótimas. Você já ouviu falar no VÖBB? O Verbund der Öffentlichen Bibliotheken Berlins — em tradução livríssima, Associação de Bibliotecas Públicas de Berlim — é a forma mais prática de emprestar livros em bibliotecas espalhadas por toda a cidade. Acesse o mapa completo aqui.


Para se cadastrar:

  • Acesse o link e faça seu cadastro online;

  • Ou compareça a alguma biblioteca que faça parte do acordo com documento oficial e Meldebescheinigung. 


Para o cadastro, é necessário pagar uma taxa de 10 euros anuais. 


Além disso, existem outras bibliotecas que possuem seus próprios cadastros, como a minha preferida, a biblioteca do Ibero-Amerikanisches Institut


  • Faça seu cadastro no site do Instituto, receba sua carteirinha gratuitamente e acesse todo o catálogo da biblioteca online.


Obras em espanhol, inglês, alemão e português estão disponíveis. Basta realizar a reserva uma hora antes da retirada. Você pode ficar com os livros gratuitamente por um mês.


Por último, mas não menos importante, não posso deixar de citar A Livraria, uma livraria com opções em português, espanhol, inglês, alemão e italiano. Eles sempre possuem os últimos lançamentos, aceitam encomendas, além de ser um lugar para matar aquela saudade de passar alguns minutos, ou horas, folheando livros e decidindo a sua próxima leitura.


A história para além do livro

Acho importante a gente não falar da leitura nesse espaço como algo trivial, porque não é. Aqui, não espero que nada seja óbvio e não dito. Ao contrário, espero que possamos perguntar as coisas mais simples e nomear as mais complexas, porque é assim que nos reconhecemos e criamos algo que é familiar, longe de casa.

Um dos meus textos favoritos da vida foi escrito por Antonio Candido, O Direito à Literatura:


11 de abril de 2026 - Heidelberg
11 de abril de 2026 - Heidelberg

Ora, se ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura, concebida no sentido amplo a que me referi, parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito.


Criamos e vivemos no universo da ficção o tempo todo. Acredito que para nós, pessoas migrantes, é ainda mais forte a conexão com os pensamentos, as possibilidades e as histórias que criamos no decorrer do dia. Muitas de nós imaginaram a vida aqui mesmo antes de vir; e muitas imaginam a volta para casa, seja através de visita ou de forma permanente. 


Antonio Candido brilhantemente nos lembra que se a literatura é esse universo da criação, ela é uma necessidade universal que experimentamos todo dia. Sendo assim, poder acessar a literatura produzida é, sim, um dos direitos da vida humana. Precisamos, e ainda bem que conseguimos, acessar mundo possíveis e realidades alternativas nas histórias que lemos. E essas são essenciais, para reconfigurarmos as nossas próprias e descobrirmos formas de vida que nem sabíamos que existiam.


Atualizações da semana


Divulgação Amazon
Divulgação Amazon

Talvez você ainda não tenha visto esses dois livros coloridos por aí, mas eles fazem parte da criação da brilhante Socorro Acioli, que para mim e para muita gente, é uma das maiores escritoras de realismo fantástico da literatura brasileira.


O realismo fantástico é um estilo de literatura muito característico aqui da nossa América Latina. Gabriel García Márquez é o grande nome do gênero, e eu recomendo fortemente a leitura de Cem Anos de Solidão, um dos meus livros preferidos.


Para mim, o melhor jeito de explicar o gênero, além de mergulhar em algum livro, é pensar nas histórias que você cresceu escutando. Minha avó sempre contava de um senhor que visitava as mulheres da minha família, em gerações diferentes. Que eu devia saber que, em algum momento, ele apareceria. Esse senhor, na verdade, seria um anjo, enviado à Terra para conferir se o meu coração era bom. Caso eu o ajudasse, eu receberia uma rosa como recompensa, uma rosa que nunca ia morrer. Minha avó dizia ter passado por isso, assim como a mãe dela e a avó dela. A rosa? Eventualmente se perdia, coisas de histórias fantásticas.

Eu confesso que até hoje penso se não foi muito atrevimento da minha parte mudar de continente antes do senhor passar no meu endereço. Resta torcer para que ele tenha acesso ao meu Anmeldung e me ache em um dos vários CEPs que coleciono aqui por Berlim. 

Divulgação Unidos da Tijuca
Divulgação Unidos da Tijuca

Além de bombar na plataforma do MEC Livros, A Cabeça do Santo foi anunciado como enredo do Carnaval de 2027 da Unidos da Tijuca. E, aproveitando a deixa, além de recomendar os dois livros, recomendo alguns desfiles literários:


  • O desfile da Portela 2024 com o tema Um Defeito de Cor 

  • O desfile da Imperatriz Leopoldinense em 2023 com o tema O aperreio do cabra que o excomungado tratou com má-querença e o santíssimo não deu guarida. O desfile trouxe a história de Lampião e teve uma das minhas comissões de frente preferidas.


A leitura, o ócio e o direito ao descanso


Espero que você saia ainda mais inspirada a ler depois dessa coluna. E não, eu não me esqueci de que citei o 1º de Maio e a tal da revolução que eu acredito estar ocorrendo na leitura.


Sobre a data, eu acho que a gente deveria se lembrar o quanto fazer algo por prazer e enriquecimento pessoal é revolucionário, em um contexto que nos ensina a fazer três coisas ao mesmo tempo, ouvir áudios na velocidade 2x e pensar que tudo deve trazer benefício para o nosso trabalho. Eu sei que poder falar sobre isso é um privilégio, mas acho que, como imigrantes, é importante lembrarmos dos direitos que temos. Espero que você saia dessa leitura entendendo a literatura como um deles.

Além disso, não podemos nos esquecer das lutas e das revoluções que ainda precisam acontecer em casa. O fim da escala 6x1 é mais do que uma mudança econômica e trabalhista, é uma mudança para garantir qualidade de vida e tempo de descanso para a população trabalhadora. Te convido a investir sua energia nesse feriado falando sobre isso com amigos e familiares.


E sobre a revolução, tenho visto cada vez mais mulheres compartilhando sem medo suas leituras de fantasia, clubes do livro, comentários no TikTok e por aí vai. Eu acredito muito que, apesar dos últimos dados tristes, os leitores existentes têm se reunido para divulgar ainda mais essa forma de arte. E acredito que esse susto com o fim de livrarias e o baixo número de leitores nos fez perceber o quanto mesquinho é medir a qualidade de uma história. Espero que você seja feliz lendo o que gosta. Se você leu até aqui, vai por mim: você é, sim, uma pessoa leitora. 


Até a próxima!

 
 
 

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