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Visita da Cacica Jaqueline Haywã do Povo Pataxó Hã Hã Hãe Kariri Sapuya a Berlim

há 3 horas
3 min de leitura
 Encontro Janainas e Cacica Jaqueline Haywã
Encontro Janainas e Cacica Jaqueline Haywã

Por Uriara Maciel


15 de setembro foi para Berlim um dia ensolarado, uma novidade um tanto inusitada para as últimas semanas do verão europeu e, com certeza, um dia lindo para muitas brasileiras. Em especial para as mulheres que foram prestigiar a agenda do dia da Associação Janainas. Pois a agenda do dia trazia o Sol do Brasil, ou melhor, a Guaraci de Pindorama, a iluminada guerreira do povo Pataxó Hã Hã Hãe Kariri Sapuya, a Cacica Jaqueline Kaywã.


O evento propunha a exibição de um documentário seguida de debate, finalizando com a tradicional Toré. Aos poucos, o espaço foi se enchendo e a diversidade se fez notória: várias identidades ali representadas e uma energia cunhã tomaram conta do ambiente. Sem dúvida nenhuma, a Cacica Jaqueline trouxe muito mais do que o programa mencionava. Com muita alegria e força feminina, ela trouxe história, pensamento crítico, sabedoria, ensinamentos, palavras de incentivo, resistência e muita força ancestral.


No documentário que leva seu nome e é dirigido por Flávio Marin, a Cacica conta um pouco de sua trajetória desde a infância no sul da Bahia, onde viveu e vivenciou as tradições de seu povo até a diáspora sofrida por conta da violência no campo que atingiu tantos povos indígenas ao redor do Brasil, principalmente nas décadas de 1960 e 1970. No caso da Cacica, sua família migrou para Ribeirão Pires, cidade do ABC Paulista, onde vive até hoje. Foi neste território que, ironicamente, a professora, mãe e ativista, se reconectou definitivamente com a sua identidade indígena. Durante a pandemia da Covid, Jaqueline Kaywã teve a sua origem questionada, mesmo portando um documento de identificação civil comprovando-a. Na ocasião, ela se viu obrigada a provar que era, sim, uma mulher indígena e decidiu mapear todas as famílias indígenas daquele território. Após nove meses de muito trabalho, ela conseguiu identificar 308 parentes do povo Pataxó, os cadastrou na Funai e iniciou um movimento de luta por direitos na região. Hoje, já consagrada Cacica, é respeitada pelos habitantes e autoridades locais. A liderança coleciona vitórias como a instalação de três postos de saúde voltados ao atendimento da população indígena e a aquisição de um terreno para a construção do primeiro Centro Cultural Pataxó Hã Hã Hãe do ABC Paulista.


Outro ponto alto da noite foram os ensinamentos sobre a realidade dos territórios indígenas urbanos, há muito ignorados por grande parte da população brasileira, e sobre símbolos ancestrais como o Cocar, que traz em suas penas representados os encantados, Tupã/Deus, e as figuras paterna e materna, que precisam ser lembradas e honradas, além do nó que representa a união e a coletividade necessárias para seguirmos existindo. O grafismo indígena, muito presente nas pinturas corporais, vestimentas e objetos, foi desmistificado pela Cacica ao esclarecer que o significado de cada um deles pode comunicar um desejo, o estado civil ou até mesmo pode abençoar, proteger e auxiliar quem os utiliza em momentos difíceis.


Foram muitos aprendizados, muitas trocas de imensa potência, e como não podia faltar num encontro de mulheres brasileiras que se prezam, teve dança sagrada e cantoria abençoadas pelo som do maracá. Palavras de ordem e evocação a Jurema iluminaram o espaço e encheram os corações, fazendo com que fôssemos teletransportadas para um Brasil cheio de luz e esperança de que tantas de nós têm muita saudade.


Agradecimentos eternos pela oportunidade de fazer parte desse movimento mulherista em terras germânicas, por entender que o chão que se pisa, independentemente de fronteiras e espaços geográficos, pode nos reconectar à ancestralidade que nos acompanha, guia e fortalece. Vida longa à Guerreira Pataxó Jaqueline Kaywã, e que sua trajetória de luta siga ganhando respeito e admiração por onde passar, Brasil adentro, mundo afora.


16 de setembro de 2026.

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*O MCQ edição especial contou com a parceria de Arlete Martins @Art.kulando.Berlim

 
 
 

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